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sábado, 16 de março de 2013

TEMPO DO AQUI E AGORA: AGORA É O QUE É


Mais um desabrochar,
ainda que com a dor como mestre... ela nem é tão ruim quanto parece,
apenas necessária pela nossa condição humana e
limitada de ver e entender e aceitar e continuar e deixar passar...
de encarar o que é!

Pat Lins.

Juntando nossas partes, montamos um todo de pequenas partes fragilizadas. Um apoiando o outro e estabelecendo um equilíbrio improvisado, até a dor do desmame ir, pois ainda está em seu tempo de ser. 

Em paralelo, ela - essa dor - vai-se indo e a dor que fica - pelo irreversível - é chamada pela razão do fato e do lógico para ocupar um lugar próprio, que caminha junto, calada e compreensiva e dá-se, aos poucos, lugar para o aqui e agora, para o novo tempo que se instala, que se ergue, que É!

E assim caminhamos. Ainda não encaramos porque a rotina ainda não fora retomada. Todos precisavam de um refresco... todos vivenciamos e a acompanhamos a saga de dor de minha tia... todos nós sofremos com ela. O alívio dela foi nosso alívio em não vê-la ter que passar por aquilo. Uma morte, um descanso para sofrimentos que poderia ter se arrastado por anos e anos... mas Deus teve compaixão e não permitiu que essa filha passasse por isso. Triste doença - câncer - que aplaca não apenas o doente, mas todos no perímetro ao redor. O conforto de saber que ela não está presa a uma cama, vegetando nos foi dado. Isso nos fez entender o quão importante é a medicina e seus avanços, mas o quão acima disso estão os desígnios de um destino que não nos cabe conhecer previamente. Coisas da vida e da vida-morte-vida que eu prefiro acreditar e que, apesar de questionar muito, começo a aceitar o que em mim já pedia para ser aceito, sem tanto lutar.

Hoje, tive o primeiro sonho com ela, e estávamos todos querendo comprar um celular para o filho dela. Ela estava entre nós e não estava... O telefone deveria ser um desejo meu de estabelecer contato... Talvez desnecessário... Só peço a Deus que esteja em paz e tenha sido bem recebida pelos Seus anjos!

A família e os amigos ainda sentem/sentimos o baque, a ruptura rápida, prevista - sem hora marcada, mas sabia-se que era a evolução de uma doença sem cura e destrutiva - do que vimos com os nossos olhos, ali, lado a lado e como é dualisticamente dolorido e reconfortante ver o deixar de ser. Ali, diante de nós, nos despediamos e sentiamos que chegava o momento... e quando chegou, não estávamos nem um tiquinho preparados, mesmo sabendo... onde prova que por mais racional que sejamos, somos muito mais emocionais e o equilíbrio desses pólos é que nos permite encontrar forças sem negar a dor, sendo fortes mesmo fragilizados.

Como será segunda? Quem sabe é Deus! Uma partida no meio da semana, um enterro na quinta... uma sexta de descanso, um sábado de primeiro momento sem ela... e amanhã, e a segunda, quando teremos que retomar a rotina? E o filho dela - meu primo - quando dormir e acordar em casa sem ela... e minha tia caçula, que vivia com ela, que era a irmã, amiga, parceira, companheira de todas as horas? Juntamos nossos caquinhos e nos erguemos num novo EU de cada um, e num novo NÓS como família, para dar conta de tudo que ainda está por vir... Meu primo é especial, vai precisar de tratamento... Deus nos dê a capacidade de dar conta daquilo que só uma mãe consegue fazer, que é fazer tudo por ele - com erros e acertos como qualquer mãe que se preze... 

Deus, te pedimos que amenizasse o sofrimento dela, que não a arrastasse naquele quadro... - não tem prisão pior para um inocente do que ficar preso em um corpo morto e vivo, agonizando e sofrendo por  dias, semanas, meses, anos e anos... - e o Senhor nos escutou, a olhou e a levou. Agora, Pai, pedimos que nos capacite a dar continuidade ao nosso caminho. Que nosso presente seja de força, sem as boas lembranças de um passado que se impõe e segue o seu fluxo de ser e existir e que em mais um contato com dor extrema, consigamos superar o desafio de julgar, de culpar, de encontrar onde foi a falha para aceitar o que aconteceu. Que consigamos romper com emoções densas e estabeleçamos, a cada dia mais, um contato com o que há de melhor em cada um de nós para escutarmos melhor o que tens a nos dizer com Sua infinita sabedoria, através daquela Natureza criada para nos prover e nos ensinar... nos alimentar, inclusive de entendimento pela aceitação do que é e pronto!

Obrigada a todos que seguem este blog, que, nos últimos meses ficou um pouco triste, mas com reflexões que nos deixam mais próximos do que vem a ser felicidade, que é ir se desapegando de pesos que não devemos carregar e arrastar vida a fora e vida a dentro, que é o sofrimento. Que aprendamos a deixar passar com consciência e entendimento de que a dor fica, para sempre, amenizada porque será através de boas lembranças boas!

Luto no luto para lutar pela continuidade sem luto, lutando diariamente contra o breu de mim mesma, humana que sou!

Pat Lins - mesmo aqui e agora de dor e luto, aqui e agora plantando e construindo felicidade, através do amor que liberta e refrigera a alma! A gente tem mania de pensar que perdeu algo que ainda nem achou... A gente não perde quando se ganha, a gente só precisa entender que ganhou a alegria de ver um sofrimento acabar para uma pessoa que amamos... um dia isso estará mais firme em nós - e um dia eu internalizo, isso, também...



terça-feira, 12 de março de 2013

À ESPERA DE UM MILAGRE



De acordo com a medicina, o quadro de tia é irreversível... Além do fígado e cérebro, no pulmão e no baço... Infecção pulmonar. Ela está ligada a aparelhos de monitoração e é importante lembrar, em tempos de questionamentos sobre "SPP", no HSR isso não existe. Ela sempre teve todo atendimento por lá, pelo SUS, e deram muita atenção - tanto no caso dela, quantos dos outros pacientes. Existem profissionais em todas as áreas que "queimam" a imagem da categoria - principalmente categorias chave como saúde, segurança e educação e acabam comprometendo a imagem dessas classes de maneira bastante pejorativa e, de certa forma, motiva outros seres amorfos e desumanos a entrarem no jogo do mal. 

Graças a Deus - tirando o problema que tivemos e que, supostamente por esse motivo, hoje, minha tia entrou em metástase, foi a negligencia da SESAB Estado em fornecer o medicamento, que JÁ ESTAVA PAGO PELA UNIÃO, que ela precisava ter tomado para evitar essa proliferação dos tumores para outras regiões... e nos coloca agora em condição de à espera de um milagre ou despedida - o atendimento no Irmã Ludovica e Hospital 2 de julho/Hospital São Rafael sempre foram de uma presteza, dedicação e cuidado brilhantes, acolhedores e consoladores. 

Hoje, ela está internada, medicada, monitorada, tomando oxigênio e estamos à base da fé, mesmo. De orações, de pedidos a Deus que nos capacite com entendimento e consciência do que somos obrigados a viver e experienciar e que Ele mesmo nos dê o conforto que esse entendimento pode nos trazer. A dor é grande. O sofrimento de ver uma pessoa forte e alegre - com defeitos e qualidades como qualquer ser humano - definhar em nossa frente não é algo legal, bacana e/ou agradável... é algo que inquieta, entristece, incomoda e nos faz questionar o tempo que temos de vida, que pode ser longo ou curto mas que seja vivido, que a gente aprenda a encarar as coisas pequenas e resolvê-las enquanto pequenas, porque de repente, vem uma coisona grandona que independe de nós, do nosso conhecimento de como isso apareceu e está além das nossas forças ou capacidade de solução. 

Aprendamos que a vida é a cada dia e a cada dia que identificamos algo a ser corrigido, nos empenhemos em corrigir com muito amor - e isso inclui, em muitos casos, entender que não invadir o espaço e o tempo se faz necessário. 

Hoje, vendo tia Nice lá, deitada e com medicamentos fortes penso: o que somos nós? Quão frágeis e pequenos somos nós diante de nós mesmos e nossa limitação física. E, por mais raiva e sentimento de impotência e indignação diante da SESAB, penso que meu limite era esse... saber deixar passar o ódio de algo que poderia ter tido uma chance maior nessa luta se não tivesse havido tanta indiferença e descaso de um órgão público adepto indireto do "SPP"- da dra monstro Virgínia, lá de Curitiba que era "chefe" da UTI de um hospital de respeito - onde aqui, pelo que vimos na SESAB era mais para SMM - se morrer, morreu -, tamanho o descaso com quem precisa "pedir", como pedinte, em vez de cidadão que tem o direito de receber, haja vista que nós pagamos impostos mil. Mesmo assim, me coloco comigo num processo de diluir esse sentimento ruim porque aqueles seres amorfos e estúpidos ainda estão lá, continuarão fazendo isso com diversas outras pessoas pobres e sem condições de brigar de igual para igual e que morrem e a morte resolve os problemas deles... e deixam as famílias no desamparo. No caso da minha tia, ainda tem um filho especial que ficará e nós cuidaremos com todo amor, lógico, mas a que custo? Ao custo de seguir sem a própria mãe. Havia uma chance mínima e eis o motivo da minha indignação humana, pois com o medicamento essa chance mínima era uma mínima chanca, uma chance não ter chegado a esse ponto... mas chegou, porque o descaso desse órgão não lhe deu essa chance e nem tem muito como processar... Nessas horas a Lei é cruel para o cidadão de bem que dela precisa. Nós não temos a quem recorrer, porque o caso dela estava sendo acompanhado e orientado pela DPU e nem assim conseguiram o cumprimento dos prazos e, com isso, de uma chance de vida! 

Agora, nos resta a evolução pessoal de acolher a dor e a raiva concomitante e expandir ao nível de consciência do "aqui e agora". Aproveitar o tempo que nos resta entre os momentos de lucidez dela e as nossas lembranças de um presente que existiu como tal até novembro de 2011, quando ela descobriu essa doença e toda saga começou. Hoje, esse presente tem como o futuro um passado muito provável, pois desse presente, sem o milagre, ela não sai... O que a ciência tem de informação é que trata-se de uma quadro irreversível e ligou o contador de tempo de até onde ela aguenta ir...

É o fim? Ninguém tem como saber, mas vendo aquela mulher jovem, recém completados 53 anos - dia 5 de março - acamada e afirmando que precisa ver o filho e receber as visitas porque sabe que vai morrer nos dá um negócio aqui dentro indescritível e negativo... Manter o pensamento positivo é estar aberto para tudo, inclusive para a mínima chance de um milagre!

No final e início das contas, tudo é aprendizado prático do que vem a ser "aqui e agora".

Pat Lins.

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