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sábado, 2 de fevereiro de 2013

MOMENTOS BONS SÃO OS QUE SÃO BONS

Existem momentos na vida que puxam mais pela reflexão profunda. Em outros, apenas fazer bobagens... Em outros, amenidades. Ninguém aguenta ser reflexão profunda o tempo inteiro... para tudo o equilíbrio. Mesmo assim, é possível refletir constantemente e tentar ser consciente em cada situação, em cada acontecimento.

Recentemente, venho vivendo momentos que exigem demais dessa parte reflexiva mais profunda, alguns pontos mais duros, outros, apenas acontecendo. Em todos, aprendizado. Não é brincadeira, nem para tirar onda de evoluída - coisa que estoun longe - mas, evoluindo. É vivenciando que temos a capacidade de sentir dentro, bem dentro de nós, como agíamos e como agimos. Assim, entendemos o que vem a ser deixar o passado no passado sem amnésia! Também não afirmo que reflito e aprendo da melhor maneira ou como querem que eu aja, apenas ajo como consigo e como dou conta, me esforçando para compreender mais e absorver - sem peso, sem culpa - o máximo do qe vem de bom, sem deixar de viver e sentir que tem o lado "ruim". 

Tenho acompanhado e vivido momentos de angústia, dor e injustiça humana. Tenho questionado os desígnios de Deus, principalmente o que Ele espera de nós, humanos e falhos desde a criação. Não me furto o direito de questionar, porque está na capacidade humana da reflexão e questionamento honesto é a base inicial para alguma transformação significativa. E nesses últmos momentos, dos últimos quase 7 anos, nesse processo contínuo, tenho entendido na pele e no sangue, que tudo tem um motivo, uma razão, que acontece e que tudo tem seu lado positivo sim! Nem que seja avaliar como estamos lidando com o novo ou com o mesmo fato - afinal, muita gente nem se dá conta, falam em fechar as portas ao passado sem resolver as pendências e esse passado torna-se um presente assustador e a pessao nem entende que continua agindo do mesmo jeito e querendo solução... Todos nós fazemos isso ou sempre ou de vez em quando... poucos somos capazes de querer enxergar o REAL -  nas atuais circunstâncias. 

Escuto pessoas que se julgam maduras e equilibradas desmoronarem e cairem em contradição com a posição "evoluída" quando exige-se uma prática daquela teoria toda. Eu me vejo nos dois lados: dos que falam e dos que são escutados. Admito: não sou evoluída, mas me esforço para crescer em pequenas proporções iniciais, aos poucos e um passo de cada vez. Entendo que erro, que acerto. Entendo que teremos que abrir mão de umas coisas, de não estar com algumas pessoas - uma DS = distância saudável -, por um tempo, e que isso não é maldade é limitação.

Comecei a levar mais a sério o "não julgar", nem condenar. Mesmo ainda fazendo. Só que cada vez que consigo identificar que estou julgando, condenando sinto algo estranho em mim... não faz mais sentido. Também, não sou zen e tranquila, ainda sobrecarrego meu estômago - agindo do mesmo jeito e esperando solução... - e, agora, ele - meu estômago - começou a reclamar e dizer: "hora de enxergar, se libertar e me libertar dessa maneira de agir, concorda?". A gente fala tanto nos mistérios da vida e quando eles começam a se desvelar, a gente se nega a enxergar, escutar e ver os sinais, que sim, é a maneira da vida falar... Também, nem tudo é sinal... Mas, alguns são claros e diretos. Meu estômago está sendo claro e direto.

Diante de  momentos de dores e perdas, somos capazes de nos deparar com nosso apego, nosso materialismo, com nosso aprisionamento ao TER e de como somos frágeis, ainda que não derramemos uma lágrima. Isso vem porque vem... não quero ficar racionalizando tudo a todo tempo. Aceitar a realidade é ver e entender que veio e pronto. Só que temos que fazer algo. Aí vem a prova de fogo: como lidamos, como nos abrimos para resolver - no caso de um problema; como entendemos que não precisa ser encarado como um problema...? Como lidamos com nós mesmos diante de determinadas situações? Como não cobrar do outro sua presença em nossas vidas? Como estar presente, mesmo à distância? Como estar presente sem impor esse presença, como castigo? Como entender que vínculo é algo legal e prazeroso, não imposto ou cobrado?

Tanta coisa para nos olharmos e nos abrirmos um pouquinho mais, além dos recursos teóricos que nos compomos. Eu penso assim: o que vem de fora, nos "ajuda a", não é a solução pronta. Uma palavra amiga, uma sessão de terapia, uma boa palestra motivacional, um bom livro, um colo, uma aula de yoga, um momento de meditação... tudo isso e muito mais só faz sentido no real se entendermos que são combustíveis extra, capazes de nos dar aquele gás novo. A questão está em: nos damos conta disso ou apenas alimentamos o lado superficial e teórico? Como nos permitimos tirar proveito real no real dessas ajudas? Como avaliamos nossa transformação? Começa, para mim, de uma maneira simples: se ainda cobro, ainda ajo igual querendo diferente. 

Nos momentos de dores extremas, que envolvem doenças, mortes ou afins, somos postos à prova, mesmo. Não para alguém nos avaliar, apenas nós somos capazes de nos avaliar. 

Um exemplo que me desencadeou todo esse pensamento - que não se esgota aqui - foi o fato da minha tia paterna e dinda estar com câncer. Existe doença mais temida do que essa? E quando vem numa pessoa que deicidiu criar forças para recomeçar? Mais de 20 anos sem trabalhar; o marido havia "arranjado outra"; filho com problemas especiais; "perdeu" mãe, pai...; não consegue emagrecer por conta própria... Seu sonho era reduzir o tamanho das mamas, por conta de fortes dores na coluna. Acabou perdendo a mama numa mastectomia. Imagine isso tudo logo depois de ter voltado a trabalhar - ela conseguiu ser atendende de call center à noite, das 18h até 0h, de domingo a domingo, com folgas em regime de escala - e começar a recomeçar, dando o primeiro passo? Fez todo o tratamento. Não vou adentrar muito nessa questão, já expus em outros posts, que recebeu verba do Governo Federal para comprar o medicamento de alto custo que a ajudaria nessa batalha com mais eficácia e menos dor; esbarrou na burocracia e despreparo do mundo real dos órgãos públicos. Hoje, após quase 6 meses que deveria ter começado com a medicação, conseguiu apenas uma dose - deveria estar tomando uma a cada 21 dias, por um ano - em dezembro e nada mais além de desculpas... Hoje, tumores no fígado e no cérebro... Não sei dentro dela, mas com isso, comecei a entender que cada um luta como consegue. A gente vê de fora e diz: "Ah, se fosse eu, já teria feito isso, isso e isso...". A acomodação e a vontade de ficar dentro de casa é um alerta de que ela não está bem emocionalmente. Mesmo assim, ela dá os jeitos dela, vai à secretaria de saúde e à DPU - Defensoria Pública da União - toda semana. Não tem forças para se apegar e seguir uma fé religiosa, mas faz orações... De fora, todos nós ainda mais juntos. O que vem de bom: ver o quanto nossos amigos estão conosco; ver quantas pessoas boas existem nesse mundo e dispostas a ajudar... ver que não deixamos chegar a esse ponto para estarmos juntos. Mesmo assim, ainda escutamos: "Quantos anos ela tem?" e respondemos: "52". Muitas vezes, as pessoas se espantam - natural, porque sempre vamos tentar aceitar que na velhice a doença é mais esperada...: "Nova, ainda!". E outros julgam: "Tão nova e com essa doença?". E as crianças que já nascem assim? Temos essa mania tacanha de ser assim: temporizar tudo. O tempo dela é esse e temos algo a aprender com isso. E aí? Por isso que começo dizendo: precisamos aprender a refletir nos momentos de reflexão. Refletir é um processo de libertação. Se a gente para para pensar, pode criar idéia fixa e isso não é reflexão...

Pois é, nos últimos momentos, nos últimos acontecimentos, tenho vivido de maneira prática e real muita coisa que demanda reflexão e atitude. Não me culpo pelas provas que não sei lidar com isenção de raiva, como o fato de a SESAB não saber o que fazer e ter prejudicado o tratamento da minha tia, mesmo com verba liberada pela União e comprovada pela emissão de um impresso entregue por funcionários de lá que está tudo certinho e regularizado na verba enviada, inclusive a cidade. Pirei de raiva. Meu estomago reagiu. Ponderei,após aceitar o aviso/reclamação, e entendi que está além de mim, que existem coisas que podemos fazer e que dependem de nós e outras que não dependem. Lutamos ainda com o que está ao nosso alcance e contamos com a fé e o tempo... 

Momentos bons são os que vivemos e aceitamos a realidade. Nós estamos juntos, não apenas por conta da doença, mas pelo vínculo. Não estamos sós! Nossos amigos estão conosco sempre! Se alguém reaparece agora, que seja bem vindo, pois hoje é sempre o tempo de começar. Só não há necessidade de culpa ou peso, afinal, damos a nossa vida o rumo que conseguimos e, num hoje - no tempo certo - acordamos e vivemos o hoje de maneira nova. Cada hoje que vivemos é um presente! Se vem com sentimento de pressa ou de resgatar o tempo perdido, há sintomas de culpa e prisão de idéias tacanhas... Se é para viver o hoje, o passado precisa estar bem resolvido dentro de cada um de nós, só assim o hoje é presente!

Vivamos hoje, como hoje é. Sejamos melhores a cada hoje, a cada momento. Aqui e agora é possível se fazer muito. O principal é começar - sem cobrança, aceleração ou tortura...! Resolvamos em nós aquilo que sempre volta - ou nunca vai - e, aí sim, abrimos a porta para um dia após o outro.

A gente tem a vida inteira para aprender, leve o tempo que levar. E ainda vamos partir com muitas lições não resolvidas, nem conhecidas...

Pat Lins.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

SEMPRE EXISTE CULPA OU CULPADO?

Existe uma coisa em nossa natureza humana que precisamos repensar: mania de ter que culpar algo ou alguém por coisas que, que... acontecem.

Quando soube que tinha DPP - quando Peu nasceu - eu queria saber a razão daquilo. Para mim, tinha que ter uma boa razão... Escutei de tudo, mas, em especial, duas pessoas grudaram que meu problema era muita raiva acumulada. Eu sou como qualquer pessoa, que sente raiva e que depois passa. Ficam umas pontinhas de mágoas, em outros casos, algo mais forte, como um ressentimento "brabo", mas, quem, dentro a raça humana, não sente? O grande lance é que uma dessas pessoas insiste em fingir que não sente nada disso e vai explodindo sem admitir... Mas, isso é outra história. Bom, se já me culpava pela miséria no mundo, quando estava em meio ás crises, me sentia pior, quando essas pessoas queriam me ajudar dessa maneira... Daí, costumava dizer: muito ajuda quem não atrapalha. Boa intenção é pouco. Respeito é mais importante.

Eu acredito que existam doenças psicossomáticas. Mas, como se conhecer a tal ponto de evitar que ocorra algo? Esse é o grande lance de se saber que nossas emoções é que controlam nosso corpo, mas, quem de nós tem controle sobre as emoções, a ponto de não sentir nada? Lidar com raiva, acessos de fúria e diversas outras emoções destrutivas é que faz a diferença, mas, normalmente, elas explodem antes para depois a gente se cuidar e refletir. Se tem uma coisa que acredito é que nós temos a capacidade de nos curarmos, sim, mas, como somos seres complexos, não podemos determinar com 100% de certeza que a cura depende de nós mesmos. Sim, se não quisermos nos ajudar, nada ajudará. Mas, como disse a Marcia Cabrita, quer dizer que se uma pessoa não consegue se curar e morre, a culpa é dela...? Somos ou não cruéis e severos, até passarmos para o lado de um problema grave... Eu também, como todo mundo, julgava minha avó quando ela teve Depressão profunda... Dizia que ela precisava de força de vontade, precisava reagir, que dependia dela a cura... Até passar para o outro lado e ter Depressão Pós parto... Penso que podemos repensar nossas atitudes. Eu queria muito, durante o tratamento, descobrir a razão da DPP, até compreender que não deve existir uma única resposta... especulei o que pude e me aproximei do que poderia ter originado. Mas, só consegui me ajudar de verdade, quando me foquei na cura, antes de tudo. Concordo que procurar a origem é de suma importância, claro, para se curar algo, tem que saber o que curar... Mas, não podemos perder o foco no aqui e agora. Foi o que fiz: encarei a realidade e tratei das feridas abertas, enquanto procurava de onde ela veio.

Hoje, numa sala de espera, estava lendo as velhas e básicas revistas velhas e li uma "Isto É", de outubro de 2010 - olha, do ano passado - rs - e li a entrevista com Marcia Cabrita - atriz -, muita coisa interessante e a cara do A DOR SÓ DÓI ENQUANTO ESTÁ DOENDO. Pois é, segue, a seguir, um texto que vale a pena ser lido e nós podemos repensar algumas de nossas atitudes:

 
"As pessoas cobram muito de quem tem câncer"
(Marcia Cabrita)

Em tratamento contra um tumor de ovário, a atriz diz que, sem querer, muita gente culpa o paciente pela doença e atribui a ele a responsabilidade pela cura.

Eliane Lobato
 
A atriz e comediante Márcia Cabrita, 47 anos, recebeu o diagnóstico de tumor de ovário em março. Agora, ela acredita ter aprendido muita coisa nestes últimos sete meses a respeito de como se sente, de verdade, um paciente com câncer. Descobriu, entre outras coisas, que, mesmo sem querer, muita gente acaba jogando sobre os ombros do doente culpa e cobrança ao dizer, por exemplo, que a origem da doença está em uma mágoa não superada ou que é preciso manter o pensamento positivo sempre. “Atribuir ao esforço e à motivação interna do doente a capacidade de cura também é uma crueldade”, disse nesta entrevista à ISTOÉ. Sem falar do “olhar pé na cova”, como ela se refere às pessoas que falam “que bom te ver!”, mas cujo olhar não disfarça a surpresa por ela “ainda” estar viva, e bem.

Márcia retirou os ovários e o útero, a quimioterapia está dando certo e seu prognóstico é de cura. De sua casa, no Rio de Janeiro, ela compartilha a experiência no blog Força na Peruca e se anima com as mensagens dos internautas. Quando a quimioterapia não a deixa debilitada demais, sobe ao palco para encenar a comédia “Tango, Bolero e Cha Cha Cha”, em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Rio. Separada, é mãe de Manuela, 9 anos.

Istoé - O que você sentiu quando soube que estava com câncer?

Márcia Cabrita - Quando eu acordei da cirurgia em que retiraram o útero e o ovário, nem sei o que senti. O médico me disse que tinha encontrado uma coisa que não esperava. Eu perguntei: “É câncer?” Ele respondeu que tínhamos de aguardar o resultado da biópsia. Depois, tive medo de morrer. Muito. Só pensava em minha filha. Em deixar órfã a pessoa que mais amo.

Istoé - Conseguiu manter a calma?

Márcia Cabrita - Não, e penso que ninguém precisa manter a calma numa hora dessas. Mas fiz tudo o que tinha de fazer, tomei todas as providências: exames, consultas, cirurgias.

Istoé - No seu blog, você fala da cobrança que sentiu das pessoas a sua volta. Que tipo de cobrança foi essa?

Márcia Cabrita - Todos os amigos e familiares acabam cobrando muito: que você tenha pensamento positivo, seja otimista e forte. Mas, naquele momento, eu não conseguia isso. Eu só tinha pensamento negativo, era o inverso. Comecei a achar que não poderia ficar boa porque não era capaz de ter pensamentos bons. Só os otimistas conseguiriam e eu, então, estava fora dessa possibilidade.

Istoé - O que mais a aborrecia?

Márcia Cabrita - Uma crueldade é a busca de todos por um culpado para o fato de o câncer ter aparecido. No caso, era eu. É muito cruel insinuar que a pessoa é que “faz” o câncer porque ela era triste, porque se divorciou, porque comeu agrotóxico. Ninguém “faz” um câncer. Eu não tinha feito aquilo em mim, como poderiam me culpar?

Istoé - Você deve ter ouvido também que o doente é responsável por sua cura.

Márcia Cabrita - Isso. E esta é a segunda parte da crueldade. Você seria totalmente responsável pela sua recuperação. Se tiver uma cabeça boa, fica curada. Se não, não. Isso equivale a colocar a responsabilidade da doença em quem está doente. Discordo. Não tenho responsabilidade nenhuma. O que aconteceu comigo pode acontecer com qualquer pessoa. Seja ela feliz, triste, criança, velha, ator, otimista ou não.

Istoé - Antes de ficar doente, você já tinha falado essas mesmas coisas para outras pessoas?

Márcia Cabrita - Sim. Quando passei para “o outro lado”, vi pessoas fazendo coisas comigo que eu já fiz. Por isso, não duvido das boas intenções. É que ninguém sabe bem como lidar com a situação. Então, mesmo que eu fique magoada, eu compreendo.

Istoé - Que conselhos daria a quem está em tratamento contra o câncer?

Márcia Cabrita - Um conselho que posso dar é: não “consulte” a internet. Não há nada pior para um leigo. Informe-se sempre com os médicos. Segundo: um dia de cada vez, faça o que precisa ser feito agora. Terceiro: dê a si espaço para desabafar o que está sentindo – chorar, chutar, quebrar. Por fim, tente ignorar os “olhares pé na cova”.

Istoé - Como é esse olhar?

Márcia Cabrita - É terrível. Tem gente que fala: “Que bom que estou te vendo!” Mas, pelo tal olhar, eu ouço: “Nossa, você não morreu!” Há outros que te olham com cara de surpresa mesmo, como se olha para alguém indiscutivelmente com o pé na cova. A expressão diz: “Você está viva?!” E tem uma irônica parte boa do câncer: todo mundo passa a te amar, a gostar de você.

Istoé - Você consegue fazer humor com o assunto, não é?

Márcia Cabrita - É da minha personalidade. Mas não estou subvalorizando a doença. Porque o inverso do “olhar pé na cova” é a pessoa que tenta passar que não acha nada demais ter câncer. Não é legal. Você está se sentindo podre e a pessoa acha que ajuda dizendo que você está maravilhosa.

Istoé - Como você contou para a sua filha que estava doente?

Márcia Cabrita - Achei que devia explicar por que eu ia ficar careca. Não falei que era câncer, falei só que estava doente. Mas, depois, passei a noite pensando por que não tinha falado a palavra. Vi que estava estigmatizando. No dia seguinte, disse toda a verdade. Mas suavizei: “Câncer, igual ao signo de seu pai.” Ela respondeu: “Então, tá.”

Istoé - E como ela lida com isso?

Márcia Cabrita - Ela não fala muito. Mas encontrou uma maneira de me dar força que me emocionou demais. Depois que raspei a cabeça, comecei a usar lenços. Um dia ela disse: “Mamãe, eu queria usar um lenço igual ao seu.” Perguntei por quê. Ela disse: “Porque é muito legal.” E, nesse dia, foi de lenço para a escola. Chorei muito.

Istoé - Em que fase do tratamento você está?

Márcia Cabrita - Faço dois tipos de quimioterapia. Uma, toda semana, não provoca reações, me sinto bem. A outra me deixa péssima, faço de 21 em 21 dias. Essa me leva a nocaute. Fico quase uma semana de cama. O câncer traz sofrimento. Emocional e físico por causa da químio. Tenho dois cateteres (colocados sob a pele para injetar os medicamentos quimioterápicos). Farei mais dois meses de tratamento. Mas estou em remissão. Para quem não sabe, é quando você não tem mais o câncer, mas não pode, ainda, sair correndo e dizer que está curada.

Istoé - Está mais tranquila, então?

Márcia Cabrita - Desde que a quimioterapia começou a dar certo, o pessimismo passou. Os médicos são muito importantes nesse momento. Tanto o cirurgião, Celso Portella, quanto o oncologista, Eduardo Bandeira de Melo, me ajudaram a acreditar na cura. Hoje me sinto bem mais fortalecida, apesar de passar muito mal na quimioterapia. Somente agora sou capaz de sentir o que me cobraram no início.

Istoé - Por que quis fazer o blog?

Márcia Cabrita - No começo, para colocar para fora o que eu estava sentindo. E isso me fez um bem enorme. Depois, percebi que estava também ajudando os outros. Escrevem para mim pessoas doentes e as que não têm câncer. São pessoas que, como eu, não gostam, por exemplo, de ler que “fulano perdeu a batalha contra o câncer”.

Istoé - O que a incomoda nessa frase?

Márcia Cabrita - Isso dá a entender que a pessoa não lutou o suficiente. E não acredito que quem sobrevive é especial, que a pessoa “venceu” porque tinha alegria de viver, tinha amor pelos filhos. Quem morreu não tinha isso? Me incomoda demais responsabilizar o doente desse jeito.

Istoé - Você assumiu a doença desde o início?

Márcia Cabrita - Pensei em esconder, não tornar público para me proteger. É um momento muito sofrido e particular. Muita gente opta por não contar, e eu entendo. Mas eu estava para estrear a peça “Tango, Bolero e Cha Cha Cha”. A princípio, combinamos não dizer o verdadeiro motivo pelo qual eu não estaria na estreia. Mas aquilo me fez muito mal: além de tudo, ainda tinha que me esconder como se tivesse feito alguma coisa errada? Não menti, mas não dei nenhuma entrevista sobre isso. Pensei muito antes de marcar essa entrevista que estou dando agora porque, para virar uma coitadinha, não custa nada. E não quero este papel. Gostaria de continuar sendo o que eu sou. Não a atriz que teve câncer.

Istoé - E como está trabalhando?

Márcia Cabrita - Faço o espetáculo quando estou me sentindo bem. Quando me sinto mal, há uma atriz (Carolina Loback) que me substitui. É curioso estar no palco fazendo uma comédia. Eu penso comigo mesma: não acredito que estou com câncer e fazendo essa macacada toda no palco.

Istoé - O fato de ter tido câncer num órgão feminino afetou você de alguma maneira?

Márcia Cabrita - Achei que não ter mais ovário e útero poderia mexer comigo mas, sinceramente, me sinto igual a antes. Não tinha mais projeto de ter filho, então, não afetou.

Istoé - E perder os cabelos? Isso mexeu com você?

Márcia Cabrita - Não foi nada fácil. E nesta questão há outra cobrança cruel: todos ficam falando que o importante é viver, que o cabelo é o de menos. Não é bem assim. Claro que, ao se descobrir com câncer, o que importa é viver. Mas a gente sofre sim por perder os cabelos. Não é legal ficar careca, caramba. Depois, você se acostuma, supera mesmo. Eu superei isso. Mas na hora é difícil. Ver aquele cabeção careca é horrível. E ainda tinha isso: sentir culpa porque estava sofrendo por uma coisa que não tinha valor, já que o que importa é a vida.

Istoé - Agora você cuida da aparência sem culpas?

Márcia Cabrita - Eu tenho câncer, mas continuo sendo eu. Não quero sair na rua com cara de bruxa. Meus cílios caíram e a sobrancelha também caiu um pouco. Eu pinto, completo com lápis marrom. Atualmente, uso uma prótese de cabelo, parece peruca. Uma noite, no teatro, aconteceu uma coisa incrível. O cabeleireiro do teatro a alisou e, quando olhei no espelho, voltei a me ver, entende? A cura se materializou, eu fiquei igual a mim, como eu era. Recuperei minha imagem. Como fiquei feliz!

Istoé - Após o tratamento, acha que dará mais valor às coisas simples, será mais generosa, vai mudar?

Márcia Cabrita - Acho que não. A única coisa que vai mudar é que lidarei melhor com isso se alguém, um dia, precisar de mim. Mas não serei diferente. Pretendo voltar a ficar chateada com meu cabelo se ele não estiver legal, com a unha quebrada, com a calça apertada. Quero que os motivos fúteis voltem. Quero ter, de novo, o direito de me irritar por futilidade.

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