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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ser Mulher e não poder ser...

Imagem : Olhares Sapo
Gente, se dói em cada uma de nós, a brutalidade de uma menina de 16 anos sofrer estupro coletivo por 33 homens, incluindo o namoradinho, imagina a família da menina?  Imagina, agora, a família dos idiotas? Imagina a mãe, a irmã, a esposa ou namorada de algum deles? Que perigo correm. Que decepção vivem? A mãe de um desgraçado desses deve estar sofrendo mais do que todo mundo, quero crer, por ver que aquele ser que ela, mulher, gerou dentro dela foi responsável e irresponsável por isso. Imagina a própria jovem! Como serásua vida, suas crenças, sua maneira de se relacionar... Estarrecedor é que os homens, são meninos, jovens de 18 anos, em média. Jovens do século XXI!

E voltemos na história. Quantas escravas passaram por isso, sem ter a quem recorrer,  sem ter quem defendesse. Aconteceu algo parecido no Piauí e só soubemos em rede Nacional porque a ONU emitiu uma nota de repúdio... o que vivemos é um arquétipo mais do que cruel. Não se trata de machismo apenas, se trata de algo muito maior. Se trata de poder e empoderamento. O preconceito social, regional... Se trata de permissividade por algo que ninguém sabe quando começou. Se trata de antes da Bíblia ser escrita... é algo da era das cavernas, onde os homens arrastavam as mulheres pelos cabelos para possuir. Assim como viam uma carne e seguiam os instintos para devorar, assim o faziam quando viam uma mulher. Sempre fomos objeto de satisfação e posse. Por mais sutil que seja, os homens sentem que mandam na gente. Os muçulmanos praticam esse crime ediondo em suas mulheres. Jesus salvou uma mulher de ser apedrejada. Jesus foi questionado porque permitia que uma mulher o seguisse e porque ele dava atenção a ela como aos seus apóstolos. Maria Madalena foi essa mulher que representa a liberdade de ser mulher, por ser humana tanto quanto os homens, mas o negócio era tão feio que ela nunca pode entrar num livro bíblico, tendo ela escrito e passado a verdadeira mensagem do Cristo. Hoje, se reconhece que existe esse livro apócrifo. É algo que não faz o menor sentido. Algo reforçado pelas religiões. Algo reforçado pelo interesse que assim permaneça.

Até quando? Já avançamos muito, mas falta o essencial : respeito real e natural pela igualdade de direitos. Que fisicamente somos diferentes sabemos. Porém, essas diferenças não justificam uma supremacia "macho alpha" sobre a sociedade.

Nossa sociedade está bem refletida no padrão insano de "linda, recatada e do lar" que para muitos apenas uma piada, para outros apenas um ponto de vista e cultural... para nós, um perigo e alerta.

A culpa é sempre do algoz, não da vítima. Que fique bem claro, minha gente. Nada justifica a brutalidade, um atentado desse nível. NADA! Que a menina estivesse nua. Não estamos falando de relação sexual. Estamos falando de ESTUPRO,  de agressividade, de uma quase morte, porque o que aconteceu não foi o prazer sexual mas um gozo desgraçado pelo poder que aquela posição lhes deu: o poder de destruir. Foi uma ode à crueldade, insanidade. Um deleite sádico de ver o sofrimento do outro, a vida de uma menina nas mãos deles. Poupem-me de justificativas vazias. Se fosse um cara sendo seduzido por ela, seria relação sexual consentida. Se fosse um joguinho barato de sedução uma das partes teria direito de escolha. Não foi isso. Não foi algo que tenha justificativa. Não há razões. E uma mulher muçulmana, que anda de burca, quando um desgraçado e desalmado desses estupra? Para piorar, ela ainda sofre mais estupro, o estupro corretivo, coletivo,permitido pelo pai e lela lei porque se um homem chegou a esse ponto foi porque ela pediu. Ou seja, a culpa é dela? Covardia!

Para meu filho, sustento a importância de se respeitar qualquer pessoa, não entro pelo gênero porque não buscamos segregação, buscamos o respeito natural do Ser com outro Ser. E não é tarefa fácil nadar contra essa correnteza e loucura estabelecida.

Sejamos as semeadoras de tâmaras em forma de filhos e filhas com valores e virtudes.

#LugarDeMulher #HomensEMulheresRespeitoMutuoENatutal #BelaDestacadaEDaVida #ViverMelhor #UmMundoMelhor #MulherÉSerHumano #MulherDeveSerRespeitada #Mulher

Patricia Lins

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A SEGURANÇA PÚBLICA x EXIGÊNCIAS DA ATUALIDADE

Gente, faz tempo - não é novidade para ninguém... - que escuto: "não sei mais do que tenho medo, de quem deveria fazer a nossa segurança ou dos bandidos...". Isso me preocupa muito, como mãe, como filha, como irmã, como tia, como pessoa, como cidadã, como pessoa que conhece policial - penso eu que todo mundo conheça, pelo menos, um - e como ser humano, acima de tudo.

O que eu percebo é que nos tempos atuais, em plena era do marketing como "arte de guerra", a exigência superficial de excelência, de qualidade ISO sabe lá nove mil e quanto, em plena fase de "parecer que está sendo feito", vejo pouco se fazer de concreto e profundo. Os tempos mudaram. Aliás, os tempos mudam! Os valores estão deturpadíssimos e a violência vem aumentando em escala monstra e explosiva. Mas, alguns setores deveríam ser mais respeitados e isso, com certeza reverberaria na sociedade de maneira mais positiva.

O que me chamou a atenção, foi um policial falar: "Eu sei que tudo é uma questão de escolha e vocação. Eu gosto de ser policial. Tentei outra profissão, me graduei... Mas, servir na segurança pública me encantava.  Só que tem um ônus muito forte. Por exemplo, existem profissões, como médicos, policiais e professores que são a base de uma vida social: saúde, segurança e educação. Todos são motivados pela vocação, mesmo e dedicação à profissão por amor, mesmo, porque bem remunerados, em verdade, não são. Um médico é médico onde for e a qualquer hora, mas, se ele estiver de folga, ele é um médico de folga. Entenda, eu sei que se acontecer algo, se chamarem ele, ele deixa tudo e vai servir. Me refiro ao fato dele poder ser a pessoa separado do médico. Ele não vai ficar tenso, olhando se alguém está passando mal. Se estão limpando as mãos corretamente... etc. Um policial, ele é policial antes de tudo. A pessoa deixa de existir á frente. Até na vida pessoal existe o clima de tensão constante. O público que a gente lida não descansa... A um médico, todos são gratos, mesmo quando há a morte, mas, pelo esforço que teve. O público do policial vai ficar grato de quê? Eles são errados e, quando são pegos, eles acham que errados somos nós...".

Aquela conversa me fez refletir, juntamente com outras informações. Muitos crimes hediondos vêm sendo cometidos por policiais. É como se a farda pesasse... O poder não é algo que qualquer um sabe lidar com facilidade. Isso é meio óbvio. Aí, eu me pergunto: qual o apoio psicológico dispensado a essa categoria? A tensão é uma força controlável com facilidade e num ambiente cansativo e desgastante? Existe o descanso necessário? Todos sabemos que em determinadas funções, o emocional fica abalado e a repetição, a rotina de determinados acontecimentos mudam a relação com e das pessoas com os valores. Com o passar do tempo, a tendência é enraizar. O Governos deveria investir mais em contratação, qualificação e numa reformulação da estrutura organizacional, geral, desde a seleção até a manutenção desses profissionais. Escalas diferenciadas - se houver mais gente, mais fácil trabalhar com essas escalas mais humanas, afinal, esses profissionais precisam se refazer -; avaliações psicotécnicas mais sérias e sem direito a recorrer na Justiça. Interessante é que, em geral, esses crimes bárbaros - falo em geral, porque não tenho estudos, nem muitos dados sobre isso, - foram identificados como "fora de padrão" para servir à corporação. Aí, me vem a pergunta: se eles foram "barrados", por não terem sido aprovados no psicotécnico, quem os liberou? Existe uma brecha na Lei que permita isso? Então, qual a valia de um psicotécnico? Deveria haver mais relevância com relação a essa ferramenta psicológica. Ela faz com que aquilo que foi identificado como "potencial descontrole" não entre numa função que requer um certo bom senso e capacidade de agir sob pressão. Daí, escutei, há um tempo atrás, o Secretário de Segurança Pública da Bahia, desabafando em uma coletiva de imprensa, após um crime barbaríssimo na capital baiana e afirmou exatamente isso: a importância do psicotécnico. Não me recordo a frase exata, mas foi o que me chamou a atenção, quando ele falou: "esses casos são profissionais que o psicotécnico identificou...". Ou seja, quando eles recorrem na Justiça, mesmo vendo que não se enquadra naquele perfil, mas, quer entrar por outras razões - que não a vocação... é simples identificar e diferenciar um profissional vocacionado e outro "interessado". Gente, bandido não tem RG ou CPF diferenciado... não vem escrito: "sou bandido". E um desses, com distúrbios de personalidade, emocionais... inclusive, de caráter, mesmo... se inscreve no processo seletivo e é capaz de passar, desde que estude. O que vai "evitar" que essas pessoas entrem num ambiente que exige firmeza de caráter? os testes psicológicos. Enfim, eu vejo como "cúmplice" quem libera... Mas, isso é minha opinião e é questionável...

Fui conversar com uma professora de psicologia da corporação, se havia um cuidado humano com os profissionais e ela me respondeu: "tudo defasado...". Ou seja, investir em melhorar a a aparência da corporação não a melhora... 

Uma coisa é investir na aparência para venda de uma imagem positiva no comércio, já que existe a concorrência e etc. Mas, em saúde, educação e segurança além de não melhorar, piora! Imagine o público interno -os profissionais - desses setores, como se sentem? Todo mundo sabe que um profissional motivado rende mais...  O que motiva um profissional, dentro do seu ambiente de trabalho - ainda que seja um vocacionado, que vem com aquela característica em si, como uma parte de si? Um ambiente saudável, com clareza e transparência na condução das metas e das funções e uma boa administração. Agora, imagine incluir nesses setores, estratégias de guerra para venda de aparência. Você já não tem investimento em "cuidados" diversos com a pessoa que existe no profissional; já recebe relativamente pouco, porque você tem que investir... até a farda do policial ele tem que comprar e é cara...; vive num ambiente tenso e uma rotina de pressão. Fora a questão da rigidez e frieza que vem como forma de "preparação de caráter" dentro da corporação. Imagina, pressão nas ruas por conta da profissão e do "público" - não gosto de ficar repetindo: bandidos, marginais... - que lidam, tem a resistência  e cobrança de uma população que, na maioria das vezes, tem razão em exigir, mesmo, mas, o COMO exigir é que faz com que essa exigência seja feita e reconhecida como legal, senão, perde-se a razão. Nossa população tem uma característica peculiar... estou tendo cuidado para escolher as palavras, mas, aqui na Bahia, por mais que me doa reconhecer e admitir, as pessoas não têm acesso a uma boa educação acadêmica - por falta de investimento dos governos -, entretanto, educação acadêmica é apenas uma parte da educação de um povo - com muita importância, eu sei e luto por isso, pois, abre portas para novas descobertas - a educação doméstica é algo mais pessoal e cultural. Assim eu penso. Sendo assim, então, sejamos francos, nosso povo é muito mal educado. E muito, é mmmuuuiiitttoo, mesmo. Basta sair daqui, vai em Sergipe, que é do Nordeste, também, uma região muito pouco reconhecida e com muito pouco investimento financeiro... todo mundo sabe... e a gente vê a diferença. Aqui a gente só fala em "direito" e ninguém lembra-se que tudo é DEVER e DIREITO. Olha para as ruas em Sergipe e olha as da Bahia? Melhor, olha Salvador, que é mais gritante... as cidades do interior são mais limpas. Gente, "cidade limpa não é a que mais varre, é a que menos se suja". Então, voltando, imagina essa população tão "cheia de direito" como contribui para o bom funcionamento das ações dos policiais?

Não estou aqui defendendo a categoria, não. Estou tentando nos fazer ver que tudo faz parte de um contexto maior. Essas barbáries são obras de pessoas doentes. E essas pessoas doentes estão dentro de uma instituição onde essas doenças acabam sendo catalizadas pela pressão diária e o "poder" da farda. Muita gente não dá a devida relevância, mas, o que nos move não é apenas o nosso corpitcho, nossas pernocas... nossa mente, gente, comanda TUDO e muito mais! Isso deve ser levado em conta. Quando um desses seres são detectados num psicotécnico e, assim, impedidos de entrar na corporação, a família sai em defesa... a população compra a causa... depois, a culpa é de quem? Depois, quando acontece um crime hediondo cometido por um "fardado", alguém lembra de investigar se para essa pessoa havia uma advertência do tipo: "não apto para a função"? Para piorar, depois que cumprem a pena - quando cumprem - e são exonerados, quem os coloca de volta? 

Está tudo errado porque a gente está vendo tudo errado e aceitando tudo o que é errado. Na hora que o errado fica pior, nossa! 

As exigências da atualidade permitem que a imprensa acompanhe e divulgue as ações da polícia... O que, para mim, é estranho... Assim, divulgar, acompanhar, passar informações claras é uma coisa. Divulgar o que a polícia pretende fazer num determinado caso, para mim, é dizer: "bandido, é isso que eles estão fazendo. É disso que estão suspeitando...É por aqui o caminho...". Isso é o ônus. Eu penso que o sensacionalismo esteja confundindo o que seja a "liberdade de imprensa" com um excesso de liberdade e pouco cuidado com o trato da informação. Fora quando divulgam um hipótese como algo certo e a população é guiada... depois, muda, a população muda de opinião. E quem fica descredibilizada? A imagem da corporação policial.

As "exigências" da atual atualidade - me permitam a redundância - são efêmeras demais... são rasas demais... Onde estão as raízes?

Para mim os erros estão aí: nas exigências da atualidade. Como exigir algo sem a menor condição intelectual? Fora que bom senso é algo que se desenvolve no dia a dia, diante de uma postura mais aberta e menos expectativa. Nas exigências da atualidade, uma expectativa manifesta vale mais do que um Decreto. Uma expectativa dessa quando se transforma em frustração vira uma catástrofe geral. 

Até reconhecerem que deve-se mexer não só no maior número de contratação de policiais, mas, em capacitação, qualificação e avaliação de perfil, muitos inocentes ainda serão confundidos com os não inocentes - que estão cada vez mais em meio aos inocentes, mais "criativos", mais organizados e mais ousados - fora que muito mais bem preparados... Quer ver uma coisa? Quando você se depara com uma blitz, está dentro do seu carro com filme escuríssimo - para a nossa segurança... - como você age? Em geral, TODO mundo reclama: "Ah, que saco, uma blitz!". A gente vê o trânsito lento e se chateia... Nós não somos educados para entender que têm certos incômodos necessários. Daí, muitos mantêm suas luzes internas apagadas, vidros fechados. É parado e resmunga: "em vez de pararem os bandidos, me param...". Eu aprendi como dica de um policial: coloco o farol de estacionamento, acendo as luzes internas, abaixo os vidros, passo na velocidade mais lenta e sigo tranquilamente. O problema é a pressa. A maior exigência da atualidade é a PRESSA. Temos pressa para tudo. Com a imprensa no pé, criando um clima de que a resposta deve ser mais rápida, faz com que se veja no que não é o que é... Um inocente acaba pagando pela "pressa" em dar respostas a sociedade. Também, tudo errado, em quem vamos confiar? 

É urgente a necessidade de se quebrar com essa bola de neve, gente. Precisamos estar mais preparados como pessoas. Mais abertos. Resgatar valores. Aliás, Valores! Isso que vivemos é loucura e inatingível. O povo só clama: "tem que botar mais policiais nas ruas...". Depois, eles mesmos alegam temerem os policiais... Oh! E aí? Melhor cobrar do governo: como é a qualificação e a capacitação desses profissionais? O que é investido nesse setor? É muito fácil jogar um monte de homem e mulheres nas ruas, fardados e sem preparo... 

A Segurança Pública está pecando... nós, cidadãos, estamos pecando... e como resolver isso? Como eleger um político correto? Difícil saber. E como me disse uma amiga: "não tem como a gente saber eleger um bom representante se ainda mantivermos essas postura de 'valores' corrompíveis..." e é verdade. Quantos se vendem por uma dentadura, sorri durante aquela fase de eleição, consegue votos para aquele político safado e, depois, chora na fila do SUS...? Por falta de segurança...? Gente, o trabalho é árduo... até para exigirmos, devemos saber COMO e o QUÊ exigir! A gente reclama das saidinhas bancárias, espera milagre e não quer colaborar. Quer um exemplo? Quem consegue ficar sem atender o celular dentro do banco? Parece que o bandido terá uma marca em si e que a câmera de segurança vai detectá-lo e ninguém precisa colaborar... Eu penso que, se já se sabe que há uma maneira eficaz de comunicação entre esses marginais, através do celular, não usar já é uma ajuda para dificultar, né não? Uma ajuda para a nossa segurança. Mas, não, o povo não quer ter trabalho... Tenha paciência! Isso não me impede de ficar chocada e revoltada com a onda de crimes hediondos. Mas, me faz entender que não se trata apenas do Governo. Ao Governo cabe fazer o que não faz... recrutrar melhor, qualificar, capacitar e cuidar. Ao povo, colaborar.

Eu quero melhoria na Segurança Pública, sim e já! Mas, não quero só que joguem um monte de gente fardada na rua. Quero que contratem mais profissionais e qualifique, capacite e cuidem desses profissionais, com estudo, com acompanhamentos psicológicos e que sejam tratados com respeito na própria corporação. Chega desse sistema de humilhação como forma de elevação de caráter... 

Pat Lins.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O PODER MUDA A PESSOA

O poder torna as pessoas estúpidas e muito poder, torna-as estupidíssimas. (R. Kurz)

O psicanalista J. Lacan ,observou que a partir do momento em que alguém se vê "rei", ele muda sua personalidade. Um cidadão qualquer quando sobe ao poder, altera seu psiquismo. Seu olhar sobre os outros será diferente; admita ou não ele olhará "de cima" os seus "governados", os "comandados", os "coordenados", enfim, os demais.

Estar no poder, diz Lacan, "dá um sentido interiormente diferente às suas paixões, aos seus desígnios, à sua estupidez mesmo". Pelo simples fato de agora ser "rei", tudo deverá girar em função do que representa a realeza. Também os "comandados" são levados pelas circunstâncias a vê-lo como o "rei do pedaço".

La Boétie parecia indignado em perceber o quanto o lugar simbólico de poder faz o populacho se oferecer a uma certa "servidão voluntária". Bourdieu chama-nos atenção para a força que o símbolo exerce sobre os indivíduos e grupos. Antes de ocupá-lo, o poder atrai e fascina; depois de ocupado tende a colar a alguns como se lhes fossem eterno. Aí está a diferença entre um Fidel Castro e um Nelson Mandela. O primeiro e a maioria dos ditadores pretendem se eternizar no poder, o segundo, mais sábio, toma-o como transitório, evitando ser possuído pelo próprio. ("Possuído", sim, pois o poder tem algo de diabólico, que tenta, que corrompe, etc).

Uma vez no poder, o sujeito precisará de personas (máscaras) e molduras de sobrevivência. A persona serve para enganar a si e aos outros. A moldura, é algo necessário para delimitar simbolicamente a ação dele enquanto representante do poder. A ausência de moldura ou o seu mau uso fará irromper a força pulsional do sujeito que anseia por mais e mais poder, podendo vir a se tornar uma patologia psíquica. A história coleciona exemplos: Hitler, Stalin, Mobutu, Collor de Melo, Pol Pot, Idi Amim, etc.

No filme As loucuras do rei George III , da Inglaterra, somos levados a perceber duas coisas: o quanto que as pessoas recusavam a idéia de um rei que perdeu a razão em função de uma doença e, que fazer para impedir alguém que representa o poder máximo de uma nação, devido a suas loucuras?

O poder faz fronteira com a loucura. Não é sem motivo que muitos loucos se julgam Napoleão ou o Rei Luis XV. Parece que há algo de "loucura narcísica" nas pessoas que anseiam chegar ao poder político (governante de uma cidade, estado ou país, ministro, membro do secretariado local), ou ao poder de uma instituição, empresa, departamento, pequeno setor de uma organização qualquer ou grupo qualquer. O narcisismo de quem ocupa o poder, revela-se na auto-admiração (o amor a si e aos seus feitos), na recusa em aceitar o que vem dos outros e no gozo que ele extrai do poder, que, levado ao extremo poderia revelar loucura. R. Kurz, é direto ao declarar que "o poder torna as pessoas estúpidas e muito poder, torna-as estupidíssimas".

O sociólogo M. Tragtenberg certa vez observou como muitos intelectuais discursam uma preocupação pelo "social", mas estão mesmo preocupados com a sua "razão do poder". Há uma espécie de "gozo louco" pelo poder, que faz subir a cabeça dos que estão jogando para ganhá-lo um dia.

Do ponto de vista psicológico, observa-se que o poder faz o ocupante perder a própria identidade pessoal e assumir outra, contornada pela "fôrma" do próprio poder. Os cargos executivos (presidente, governador, prefeito, diretor, reitor, etc), tem uma fôrma própria, um lugar que marca uma certa diferença em quem a ocupa em relação aos cargos de segundo escalão (ministros, secretários disso e daquilo, chefes de gabinetes, assessores, etc). As "pequenas autoridades" dos escalões inferiores - mas com algum poder - costumam ter atitudes mais protofascistas que as grandes. São mais propensas a "vender sua alma ao diabo" que as grandes para estar no poder.

O psicólogo Ricardo Vieira, da UERJ, de quem me inspirei para continuar seu artigo, levanta os quatro primeiros indicadores de mudanças que ocorrem com as pessoas que chegam ao poder:

1) no modo de vestir: o terno, a gravata, o blazer e o tailleur que, antes eram utilizados em circunstâncias especiais, passam a ser usados cotidianamente, mesmo quando não é necessário utilizá-los. Alguns demonstram certo constrangimento em trocar a surrada camiseta e passar a usar um blazer ou uma camisa de linho, pelo menos nas ocasiões especiais. Se antes usava um cabelo comprido, despenteado, logo é orientado a cortá-lo, penteá-lo, dar um trato. Na última eleição para prefeito de Maringá, um candidato foi orientado pelo seu marketeiro para mudar o cabelo enrolado por um penteado de brilhantina. Perdeu a eleição.

2) mudam as relações pessoais: os antigos companheiros poderão ser substituídos por novos, que o leva a sentir-se menos ameaçado. O sentimento persecutório de "ser mal visto", precisa ser evitado a qualquer preço por quem ocupa o poder.

3) altera o tratamento com o outro, que torna-se autoritário com seus subordinados; gritos e ameaças passam a ser seu estilo. Certa vez, perguntaram a Maquiavel se era melhor ser amado que temido? O autor de O príncipe respondeu que "os dois mas se houver necessidade de escolha, é melhor ser temido do que amado".

4) mudam os antigos apoios e alianças. Aqueles que o apoiaram chegar ao poder, transformam-se em arquivos vivos dos seus defeitos. O poder leva a desidentificação com os antigos colegas de profissão. É o caso do presidente FHC e do seu Ministro da Educação Paulo Renato Souza, depois de executivos, ambos não se vêem mais professores.

5) Resistência em fazer auto-crítica. Antes, vivia criticando tudo que era governo ou tudo que constituía como efeito de governo. Mas, logo que passa a ocupar o poder, revela "sua outra face", não suportando a mínima crítica. O poder os torna cegos e surdos a crítica. Uma pesquisa de Pedro Demo, da Universidade de Brasília, constata que os profissionais de academias apreciam criticar a tudo e a todos, mas são pouco eficazes na crítica para consigo mesmos. Enquanto só teorizavam, nada resolviam, mas quando passam a ocupar um cargo que exige ação prática, terá que testar a teoria; agora é que "a prática se torna o critério da verdade". Por falta de referencial e por excesso de idealismo, é freqüente ocorrerem bobagens e repetições dos antigos adversários, tais como: fazer aumentos abusivos de impostos, aplicar multas injustas, discursos cínicos para justificar um ato imoral de abuso de poder, etc. Há um provérbio oriental que diz: "quem vence dragões, também vira dragão".

Os sujeitos quando no poder protege-se da crítica reforçando pactos de auto-engano com seus colegas de partido. Reforçam a crença de que representam o Bem contra o Mal, recusam escutar o outro que lhe faz crítica e que poderia norteá-lo para corrigir seus erros e ajudar a superar suas contradições. Se entrincheirarem no grupo narcísico, o discurso político tornar-se-á dogmático, duro, tapado, e podemos até prever qual será o seu futuro se tomar o caminho de também eliminar os divergentes internos e fazer mais ações de governo contra o povo, "em nome do povo".

Infelizmente assim é o poder: seduz, corrompe, decepciona e faz ponto cego e surdo nos seus ocupantes temporários.
___________
* Psicanalista e professor da UEM

E eu faço um adendo: "basta dar poder a uma pessoa para saber quem ela é...", diz o dito popular. Eu prefiro dizer: "basta dar poder a alguém para desconhecê-lo".

Pat Lins.

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